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2009/07/18

LISBOA : la gran crónica-análisis de PATRICIA SARDINHA y las excelentes fotos de PEDRO BATALHA




Lisboa (Crónica y análisis de Patrícia Sardinha, subdirectora de NATURALES; imagenes de Pedro Batalha, jefe de fotografía de NATURALES, CORREIO da TAUROMAQUIA IBERICA).

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“Há homens que lutam um dia”

Campo Pequeno, 16 de Julho, 2009

Um dos factos que torna o toureio atractivo é a sua plasticidade pois pode ser interpretado de várias formas. Com mais ou menos pureza, com mais técnica ou mais sentimento, com mais verdade ou mais engano. É por essa maleabilidade que nem sempre podemos equiparar toureiros. Mas há aqueles que pelo percurso de uma vida dedicada ao toureio, por uma luta constante mais ou menos enaltecida, sobram sempre em valor.

Na corrida de toiros da passada quinta-feira no Campo Pequeno, faltaram lugares para todos os que à hora da corrida queriam entrar na praça de toiros lisboeta para assistir a um espectáculo misto de bastante interesse. No entanto nem sempre as corridas de expectativa acabam por nos satisfazer a 100% e foi o que aconteceu.

Se a justíssima e singela homenagem ao Maestro José Júlio pelos 50 anos de alternativa não passou disso mesmo, de um simples agrado, que nem os próprios colegas de profissão tiveram humildade para reconhecer e brindar uma lide se quer, que falar da alteração de última hora no curro de toiros, com passagem de duas a três ganadarias resultando numa miscelânea de mais do mesmo.

Desilusão maior para os que foram à corrida contando com o olear durante a tarde das dobradiças da Porta Grande para que de noite se abrisse ao primeiro sopro dos toureiros/apoderados tal como acontecera na corrida da semana anterior. De qualquer modo a partir de agora não terão os aficionados mais desculpas para se fazerem de desentendidos em relação ao regulamento que rege a abertura da Porta Grande. Fez-me a vontade Rui Bento e nos panfletos de publicidade da corrida da próxima semana estão lá expressos os artigos que à Porta dizem respeito.

Em relação aos artistas, Pablo Hermoso de Mendoza pela segunda vez esta temporada no Campo Pequeno, não conseguiu repetir a proeza de triunfos anteriores. No primeiro toiro do seu lote, com 608 kg, um Passanha paradote, manso, sem transmissão ainda se exibiu nos recortes e ladeios na cara da rês e alguns ferros mais bem conseguidos, no entanto não o suficiente para romper ao triunfo. Menos sorte no segundo que lhe tocou, também da mesma ganadaria, com 624 kg, mais colaborador, foi recebido com boa brega numa lide que foi de mais a menos, com o rejoneador a consentir que o toiro apanhasse o cavalo e não se entendendo com o oponente nem com a montada. No final agradeceu apenas, não dando volta, a manifestar a grandiosa humildade de uma Figura que muitas vezes os nossos cavaleiros portugueses em actuações muito menos conseguidas não conseguem igualar.

As pegas estiveram a cargo do grupo de Forcados Amadores de Vila Franca de Xira, primeiro por Pedro Henriques a consumar à terceira aguentando-se sozinho; e depois Márcio Francisco à segunda tentativa numa brilhante pega em que se destaca o papel do primeiro ajuda no êxito.

Vitor Mendes vestiu-se de luces para esta ocasião e chegou ao Campo Pequeno decidido a demonstrar toda a maestria e experiência. Mas sem sorte com o lote que lhe tocou. O primeiro, um Ortigão Costa com 530 kg, foi recebido com elegância de capote, executou ele próprio na perfeição o tércio de bandarilhas e na muleta mostrou muito ofício e muita paciência frente a um toiro de curta investida, complicadote, manso enquerenciado. O Maestro Mendes não é de desistir e por isso tentou criar arte sem matéria-prima. E pela mesma razão com que não virou as costas ao primeiro dadas as más qualidades da rês, não o fez ao seu segundo, um toiro de Falé Felipe com 465 kg, e tanta persistência do matador arriscando-se para subjugar o oponente, fez com que acabasse por ser colhido tendo inclusive ficado inconsciente na arena, o que não foi nada para Mendes pois assim que recuperou, voltou à luta e dominou o toiro sempre com muito apoio e carinho do público.

Pedrito de Portugal também bisava no Campo Pequeno esta temporada. No seu primeiro, um toiro com 544 kg, pouco se exibiu de capote. No tércio de bandarilhas brilhou o jovem Cláudio Miguel ao cravar o segundo par, depois de Pedro Gonçalves ter falhado o primeiro, e em vez de ter cedido a vez voltou a cravar desta vez com sucesso, tendo falhado de novo o terceiro par. Já na segunda actuação de Pedrito, o bandarilheiro Pedro Gonçalves voltou a evidenciar pouco profissionalismo face ao jovem bandarilheiro pois supostamente seria a vez de Cláudio Miguel colocar dois pares e Gonçalves um, o que não se verificou. Na muleta Pedrito deu ar de sua graça num toureio de pouca classe, com o toiro a enganchar na muleta, em passes de pouca ligação. No entanto a sorte grande saiu a Pedrito no último toiro da noite, o único nobre de toda a corrida que investiu sem parar na muleta do matador português. A rês com 476 kg, de Falé Felipe, tinha pouca força, mas uma nobreza enorme investindo por ambos os pitons, humilhando e permitindo ao toureiro prolongar a faena com bons momentos de toureio em redondo. Discutível ou não a arte de Pedrito, não se tira o mérito do matador e da legião de fãs que conserva e da importância que pode ter este “renascer” da Pedritomania no toureio a pé em Portugal. Assim Pedrito tivesse cabeça para se manter, porque toda a ajuda (segundo consta é só isso e não uma relação de apoderamento) que Rui Bento lhe tem dado, tem sido importante para que Pedrito esta temporada tenha relançado a sua carreira.

Uma noite marcada pelos homens do toureio a pé, José Júlio, Vitor Mendes e Pedrito de Portugal, homens que lutam e lutaram um dia pelo nosso toureio aqui e lá fora…E já dizia Bertold Brecht:

“Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém há os que lutam toda a vida
Estes são os imprescindíveis”